“Esse é o seu ano”



Não sei mais o quanto de café tomei esse ano. “Esse é o seu ano”. Não sei mais quantas vezes minha imunidade baixou devido ao estresse. “Esse é o seu ano”. Não dormi o necessário o ano inteiro. “Esse é o seu ano”. Assisti vídeoaula 1h da manhã. “Esse é o seu ano”. Procrastinei. “Esse é o seu ano”. Eu só tenho 18 anos. “Esse é o seu ano”. Criei metas. “Esse é o seu ano”. Chorei. “Esse é o seu ano”. Tentei me encaixar em um padrão de estudante. “Esse é o seu ano”. Acumulei matéria. “Esse é o seu ano”. Não soube o que fazer.

“Esse é o seu ano” eles disseram, sem ter noção do peso dessas palavras na vida de um vestibulando.


por Ingrid Faria

RESENHA: Pântano de Sangue - Pedro Bandeira

Por Ingrid Faria

Dando continuidade ao meu projeto pessoal de ler todos os livros do Pedro Bandeira esse ano, trago a vocês a resenha de um livro bom, mas não magnífico. Me lembrou stranger things em muitos momentos. E isso não é um defeito, amo a série. O problema é não ter amado tanto "Pântano de Sangue" quanto eu gostaria.

Nesse livro, Pedro Bandeira nos presenteia com a aventura dos Karas - Crânio, Calu, Chumbinho, Magrí e Miguel - rumo ao Pantanal.
Em um terrível dia chega a notícia dentro de sala de aula que o professor de matemática foi assassinado durante um assalto. Enquanto todos lamentam, Crânio tem certeza que não foi exatamente isso. Principalmente pelo histórico de vida de seu professor.  

"Crânio lembrava-se da genialidade do professor e de sua estranha teoria: para o professor Elias, a matemática era a única ciência verdadeiramente humana. Como? Para ele, isso era claro: a natureza pode criar seus fenômenos físicos, químicos, biológicos e geográficos independentemente da ação do homem, mas a natureza não cria teoremas, equações, nem logaritmos. Isso são criações humanas."

Ao contatar os Karas para resolver essa missão, ele se vê sozinho e na obrigação de descobrir o assassino. Dentro dele é como se tivessem trucidado alguém de sua família.

Crânio, como era esperado, acaba arrastando a turma com ele. Ao chegar lá, eles se deparam com problemas ainda maiores. E é aí que o Pedro Bandeira chega com a genialidade na escolha do tema; preservação da natureza, da cultura indígena, tráfico internacional de drogas e de armas são alguns dos temas mais trabalhados. Ou seja, o autor trabalha temas não bem tratados com os adolescentes (seu público alvo) e isso me causa vontade de continuar lendo suas obras.

"Às vezes penso que o consumo de drogas é muito bem visto pelos poderosos. É fácil manipular um drogado. É fácil controlar um jovem com a cabeça cheia de fumaça ou as veias cheias de veneno. Difícil é controlar os anseios e as esperanças de uma juventude de cabeça limpa e nariz em pé."

Infelizmente, alguns pontos precisam ser criticados. O primeiro deles é que eu não consigo achar normal como é tratada a paixão adolescente na turma dos Karas. Três dos quatro meninos são apaixonados pela Magrí sendo que todos eles não passam de pré-adolescentes. Vai entender.
A segunda coisa é o jeito que é tratada a mente fantasiosa de um pré-adolescente. Mas para me entender você precisa ler suas obras.

Independente de sua idade Pedro Bandeira não faz mal a ninguém. Como também é sempre bom ter um livro de aventura fantasioso para distrair a cabeça.

Ficha técnica: 
190 páginas
Editora Moderna
5ª edição 
Publicado em 1987

RESENHA: Doidas e Santas - Martha Medeiros

Por Ingrid

Aliás, desculpe-me a intimidade em chamá-la de querida, a questão é que sua escrita nos deixa assim. Transtornados e próximos a ela. 

Meu gênero preferido em disparado é crônica. Acho incrível a possibilidade de fazer um bom texto sobre algo do nosso cotidiano. Um choro, uma ida ao supermercado, um filme não conhecido e uma música que estava tocando no rádio. Tudo isso é causa de um novo texto de um bom cronista.

"Você sempre pega o espírito da coisa? Geralmente o espírito da coisa é algo que fica subentendido, só almas atentas conseguem captá-lo. A verdade é que, em um mundo cada vez mais pragmático, é difícil pegar o espírito da coisa, seja que coisa for essa."

Confesso ter ficado surpresa (positiviamente para deixar claro) com a escolha das crônicas. Muitas foram de resenhas de livros e filmes (anotei todas as dicas) e outras sobre a personalidade das pessoas o que contradiz com a capa. Assim que bati o olho na capa pensei que o livro se tratava de feminilidade, machismo e fantasias. Errei bonito.

"Eu, que estou longe de ser uma feminista e mais longe ainda de ser ranzinza, tenho que reconhecer o brilhantismo da frase: os homens são mulheres felizes. Eles fazem tudo o que a gente gostaria de fazer: não se preocupam em demasia com nada. Porque nosso mal é este: pensar demais."

"Se a verdade pode parecer perturbadora para quem fala, é extremamente libertadora para quem ouve. É como se uma mão gigantesca varresse num segundo toda as nossas dúvidas. Finalmente, se sabe. Mas sabe o quê? O que todos nós, no fundo, queremos saber: se somos amados. Tão banal, não?"

Entretanto, ainda temos momentos que percebemos sua voz pelas mulheres e como é fácil perceber que estamos juntas em um mesmo barco onde precisamos navegar por nós mesmas.

Martha Medeiros escreveu essas crônicas nos jornais O Globo e Zero Hora originalmente e em 2015, a L&PM nos presenteou com a reunião destas. Em uma edição de folhas amarelas e 158 páginas queremos abraçar a Martha Medeiros por suas histórias e resenhas. Anotei todas as suas dicas e você deveria anotar a minha em ler esse livro.
Topo