Anjo -



 Gustavo Lacombe *-*

Nunca vi suas asas. Na primeira vez que a gente dormiu junto eu reparei que ela demorou um tempo a mais no banheiro. Disse que tava só se preparando pra mim, mas eu tenho certeza que ela estava era dando um jeito

 nas asas. Guardou na bolsa (eu sei lá qual é o tamanho), lavou e deixou secando no banheiro. Não sei.

O tempo foi passando e eu, já muito desconfiado, fui aceitando todas as vezes que ela só sorria quando falava que era um anjo na minha vida. Sabe, daqueles que te dão presentes em formar de sorrisos, de beijos, de carinhos. Ela sempre desviava o foco do assunto e dizia que eu era um "bobo". Boba era ela de não contar esse segredinho. Vê se eu ia espalhar que conhecia um anjo?

A gente já andou de avião algumas vezes. Na nossa primeira viagem, ainda como namorados, ela disse que não tinha medo de voar. Tá vendo. Mais um sinal. No nosso casamento ela me fez flutuar ao entrar na igreja mais linda que qualquer outra noiva que eu já tinha visto. Bom, só alguém com experiência no assunto aéreo seria capaz de fazer isso comigo. Vai juntando.

Agora ela deu mais uma prova. Trouxe ao mundo mais um anjo. Se eu não sou, ela é. O gene deve ser recessivo. Imaginem a cena: ela segurando aquela criatura no colo. Aí, me olha, sorri e diz alguma coisa no ouvido do pequeno. Eles tem o próprio dialeto. Aquela coisa de comunicação entre seres de outra categoria. Eu só abro a boca e observo. Quando vou ver, passei uns cinco, dez minutos só olhando pros dois.

Nunca vi suas asas. Deve escondê-las naquele coração gigante. Tão grande que eu me sinto confortavelmente em casa ali. Outro dia, enquanto a gente se preparava pra dormir, ela se encostou em mim de um jeito que as almas se tocaram. E viraram uma só. Hoje, só porque cheguei em casa, ela me agarrou, me beijou, me jogou no chão e disse que tava com saudade. Foram oito horas intermináveis, falou.

Ela muda o Mundo, começando pelo nosso.

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