RESENHA Carta ao pai - Kafka

Por Ingrid Faria

Li Kafka aos 18 anos. Me arrependo. Deveria ter lido antes. Alguém tem noção que eu tenho dificuldade de chorar e com uma carta ao pai de Kafka eu chorei? Pois bem. 
Comprei essa edição econômica da L&PM pocket de 108 páginas em uma banca de jornal da Gávea (Rio de Janeiro).

A mais íntima obra de Franz Kakfa como dito pelo tradutor Marcelo Backes, um gaúcho estudioso de Kafka e dos russos.

"Querido pai,

Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuni-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente."

E é assim que Kafka começa a colocar suas fraquezas diante do pai. Em sua cabeça o pai não gostava dele e a relação entre eles era baseada no medo. Ele escreve a carta aos 36 anos e logo no começo deixa claro que sofre com esse relacionamento desde a infância.
Kafka era instrospectivo, não era casado, não havia formado uma família como também era frustado no que fazia. Seu pai, Hermann Kafka, era o oposto e ele o admirava por ter criado uma família. Todavia, era complicado para o filho entender tamanha hipocrisia do pai e tamanha rejeição.

"Bastava que eu manifestasse um pouco de interesse por alguém - o que aliás não acontecia com frequência por causa do meu jeito de ser - para que tu, sem qualquer respeito pelo meu sentimento e sem consideração pelo meu veredicto, interviesses logo com insulto, calúnia e humilhação."

Um dos trechos mais tocantes para mim e que mostra que o pai de Kafka realmente tinha dificuldade de ser pai é em uma nota do tradutor retirada de um testemunho de Gustav Janouch "Kafka me disse, em voz estranhamente baixa: 'Meu pai. Ele se preocupa comigo. O amor muitas vezes tem o rosto da violência'".

Isso me lembrou os inúmeros casos que vemos de romantizar relacionamentos abusivos e vejam bem, um pai não sabendo demostrar o amor para o filho. Talvez um pai que tenha diversas vezes maltratato o filho em nome de um amor.

De qualquer forma, é um livro que precisa ler lido e digerido. Não, Kafka não entregou essa carta ao pai, mas deveria.

8 comentários

  1. Poxa! Quantos desabafos e tristezas, não senti vontade de ler, porque sei que no passado havia muitos relacionamentos assim baseados no medo e hoje vemos muitos relacionamentos com extrema liberdade e nenhum respeito entre pais e filhos. Então em meio ao caos, tentamos encontrar um meio termo, deixando claro nosso amor, respeito e tolerância. Ler sua resenha me fez lembrar de um lindo livro infantil que é avesso a essa resenha, o pai encontrou um jeito de se aproximar do filho, mesmo não sabendo demonstrar seu amor com abraços e palavras: O homem que amava caixas. Beijos

    Nara Dias
    Viagens de Papel

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  2. Eu tenho dificuldades para ler obras assim justamente por serem tão impactantes, acho que antigamente (muito mais do que hoje em dia) os pais diziam fazer coisas para o bem dos filhos, para educar, mas essa maneira era extrema e tenho certeza que se eu lesse esse livro eu também me acabaria de tanto chorar. Gostei muito da dica e me deu vontade de ler, não por agora, mas em algum momento eu vou precisar ler.

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  3. Oi
    Eu amo Kafka, apesar de ela ter o poder de mexer com o mais profundo que existe me mim, a escrita dele é um soco no crânio, n a alma, no útero.

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  4. li tem muitos anos e realmente é uma leitura forte e densa... Kafka teve uma vida conturbada... uma pena que a relação com o pai tenha sido tão infeliz...
    fiquei contente de ver um post sobre ele - um dos meus autores preferidos - por aqui...
    bjs :D

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  5. Olá, tudo bem?

    Nunca li essa obra de Kafka, a trama parece ser forte e densa. É uma pena que a relação dele com o pai não tenha sido feliz. Gostei da publicação, da resenha, foge do comum que vemos em tantos blogs!
    Bjuss

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  6. Ola Ingrid,

    Sua resenha ja me emocionou, imagino a obra completa. Kafka sempre traz temas fortes em seus livros, mas acredito que nenhum tão impactante quanto esse. Me interessei muito e já acrescentei à lista :D

    Parabéns pela resenha,

    Atenciosamente,

    Tiago Valente
    http://avidalida.blogspot.com

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  7. Oi Ingrid, sua linda, tudo bem?
    Eu fico triste em saber que o relacionamento dele com o pai era nessa base. Não conhecia a história de vida do autor. Parece ser um livro bem triste com verdades difícieis de serem ditas, uma pena ue ele não sentou com o pai dele para tentarem se entender. Não é o tipo de leitura que eu faça, mas para os fãs do autor é imperdível.
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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  8. Oi, tudo bem?
    Me parece um livro bem forte mesmo, uma pena o relacionamento dele com o pai ser assim.
    Eu não sei se leria o livro, é algo a ser pensado.
    Bjs

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